Brasília, enfim
Brasília, Enfim
A gênese da série Brasília, Enfim remonta à infância do artista, quando, ainda vivendo com a família na Paraíba, seu imaginário sobre a Capital Federal começou a ser construído pelas narrativas de sua mãe. Ao retornar de uma viagem a Brasília nos anos 1970, ela passou a descrevê-la aos filhos como uma cidade utópica e fabulosa — tal como era vista naquele momento pelo resto do Brasil. Décadas depois, os filhos se mudam para a capital: a mais velha para ensinar Inteligência Artificial e o artista para cursar pós-graduação em Arte e Tecnologia, ambos na UnB. É nesse contexto que surge seu interesse pela IA e a ideia de criar uma ferramenta capaz de materializar as histórias maternas, relatos que, ao longo do tempo, já haviam sido misturados e expandidos pela imaginação de uma criança.
Assim nasce a exposição Brasília, Enfim, inaugurada em 21 de abril de 2023 em celebração aos 63 anos da cidade, sendo a primeira mostra no Brasil a empregar massivamente a Inteligência Artificial Generativa. A exposição apresentou mais de 300 obras distribuídas pelos quatro museus da Praça dos Três Poderes, dialogando com os acervos históricos desses espaços, criando um território híbrido entre o documental e o ficcional. Ao exibir imagens que simulam pertencer a um suposto arquivo público em um espaço histórico, convida-se o espectador a imaginar versões alternativas e utópicas de Brasília. Contudo, além de oferecer uma nova interpretação sobre a construção da capital, sua geografia e seus mitos, a mostra marcou também a reabertura desses museus ao público após as depredações dos ataques de 8 de janeiro de 2023.
Catálogos da Exposição
Praça dos Três Poderes
A exposição ocupou simultaneamente os quatro museus do CCPP

Ocupação Espaço Lúcio Costa
Reimaginando o planejamento urbano da capital
Espaço que abriga a Maquete e a memória do planejamento urbano de Brasília, com fotos e textos sobre o pensamento de Lúcio Costa para Brasília, este espaço foi ocupado para reimaginar o planejamento da cidade. A mostra fundiu a história oficial aos fatos ficcionais criados pelo artista. A ocupação projeta um urbanismo especulativo onde o plano original convive com uma cartografia inventada, borrando as fronteiras entre o documento e a fabulação.

Ao adentrar o Espaço Lúcio Costa, o visitante depara-se com um conjunto de fotos e textos que reescreve a gênese do planeamento de Brasília. O núcleo central relata um episódio ficcional onde Lúcio Costa, antes de traçar a capital, visita o Quilombo Mesquita e é iniciado no oráculo dos ossos pela matriarca Yetunde Adebayo. A exposição propõe que o desenho urbanístico da cidade, suas asas, eixos e superquadras, foi moldado pelo lançamento desses ossos ancestrais sobre o solo. As obras documentam esse processo, exibindo desde o aprendizado do urbanista com a quilombola até a transfiguração das peças de osso em avenidas e setores, sugerindo que as fundações da cidade repousam sobre uma magia antiga e que, se cavarmos a terra vermelha, ainda encontraremos os ossos que definiram o destino da capital.
Ocupação Espaço Oscar Niemeyer
Ficcionalizado a paisagem construída
Dedicado ao arquiteto que definiu a paisagem da capital, este espaço recebeu o núcleo da exposição focado na arquitetura e nos edifícios construídos. As obras dialogam diretamente com o vocabulário formal de Niemeyer, explorando a geometria e as curvas que moldaram a identidade visual da cidade. A galeria converte-se em um espelho crítico onde o legado modernista é reexaminado e expandido através da poética visual do artista.

Dedicado ao traço do arquiteto, este espaço acolhe o núcleo que expande o modernismo para uma arquitetura especulativa. O visitante encontra projetos ficcionais que dialogam com a sintaxe visual da cidade, como a Cidade dos Mortos, uma necrópole labiríntica de concreto no Setor Vento Oeste, e o Observatório dos Ventos, edifício circular com rampas em espiral que converte as correntes de ar em experiência sonora. A narrativa arquitetônica inclui ainda a monumentalidade geológica, apresentando os Cristais Gigantes — quartzos de dez metros descobertos nas escavações de 1957 e preservados na Praça dos Cristais. Neste núcleo, a exposição projeta uma Brasília onde o concreto e a natureza se fundem para criar novos monumentos à memória, à morte e às forças invisíveis do Planalto.
Ocupação Panteão da Pátria e da Liberdade
A história dos heróis

O Panteão abrigou um núcleo de histórias silenciadas da construção, como por exemplo o da fundação da primeira cooperativa feminina de construtoras da capital, grupo pioneiro que desafiou a hegemonia masculina nos canteiros para erguer edifícios e monumentos. A ocupação também documenta a Primeira Greve Geral, levante impulsionado pelas aulas de Paulo Freire na luta por direitos trabalhistas, e revela o Memorial dos Candangos, uma rede de quatro monumentos secretos construídos clandestinamente pelos operários. O núcleo exibe ainda a imagem de vários candangos entre eles João e Pedro, dois homens se beijando, afirmando o afeto e a diversidade como alicerces ocultos da cidade.
Templo cívico erguido para consagrar os heróis nacionais, na ocupação o Panteão foi ressignificado para abrigar a memória dos candangos. A exposição subverte a hierarquia do monumento ao introduzir as representações dos trabalhadores neste santuário, elevando os corpos anônimos que ergueram a capital ao estatuto de heróis. A ocupação opera um ato de reparação histórica, afirmando o operário como o verdadeiro protagonista da epopeia de Brasília.
Ocupação Museu Histórico de Brasília
Paulo Freire e os Canteiros de Leitura

A ocupação apresenta a documentação de um programa ficcional de alfabetização criado por Paulo Freire nos canteiros de obras, destinado a ensinar os candangos a ler e escrever. O visitante acompanha a ascensão desses "Canteiros de Leitura" como espaços de emancipação até a criação da revista Utupya (publicação desenvolvida pelos próprios trabalhadores como fórum crítico sobre a urbanização de Brasília) e o posterior desmantelamento violento dos canteiros pelas forças de repressão. A narrativa culmina no Desfile Cívico, ato em que os trabalhadores criam roupas feitas com as páginas dos livros rasgados pelas forças de repressão e seguem em cortejo, celebrando o legado apagado e disputando, através da presença festiva, o direito de também inscreverem suas histórias na pedra.
O Museu Histórico de Brasília conta a história da construção da capital por meio de texto gravados em suas paredes de mármore. Assim, dialogando com a natureza textual desse acervo, a exposição ocupou o espaço com o segmento dedicado a ficcionalização da montagem dos "Canteiros de Leitura" por Paulo Freire durante as obras da capital. A série confronta a narrativa petrificada da história oficial com a dimensão emancipatória da alfabetização, articulando a libertação dos candangos através da palavra.

































































































