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Dragão Floresta Abundante

Desenvolvido a partir de uma residência artística na Central Academy of Fine Arts (CAFA) em Pequim, em 2015, e realizado a convite do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), este projeto explora as interseções culturais, históricas e sociais entre o Brasil e a China. O título apropria-se do nome chinês dado ao artista durante sua estadia, Long Peisen (龍沛森), cujos ideogramas significam, respectivamente, Dragão, Abundante e Floresta. A imersão na China resultou em um conjunto de trabalhos de diversas linguagens (fotografia, vídeo, objetos, performances e instalações) que juntos compõem a exposição homônima. Nesse contexto, a pesquisa tece diálogos visuais sobre mitologias compartilhadas e tradições artesanais, como o recorte de papel e a fabricação de pipas, examinando conexões simbólicas entre as duas nações, como a centralidade da cor vermelha, que une a história do Pau-Brasil à simbologia auspiciosa e política chinesa.

Catálogos da Exposição

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Empório Celestial dos Conhecimentos Benévolos, 2015-2017
Instalação/Livro de Artista (dimensões variadas)

A instalação materializa uma busca literária performática cujo título se apropria de uma enciclopédia fictícia chinesa descrita por Jorge Luis Borges no ensaio "O Idioma Analítico de John Wilkins". Famosa por sua taxonomia absurda dos animais, essa classificação serviu, inclusive, de ponto de partida para as reflexões de Michel Foucault em "As Palavras e as Coisas". Durante a residência artística, o artista percorreu Pequim perguntando às pessoas que encontrava sobre o paradeiro deste livro inexistente. Muitos se disponibilizaram a ajudá-lo na procura, guiando-o por bibliotecas, livrarias e sebos; nessa jornada, acabavam por apresentar também um pedaço da China sob suas próprias perspectivas. A obra apresenta o resultado dessa deriva na forma de um grande "gabinete de curiosidades" repleto de gavetas. A estrutura arquiva vestígios, mapas, fotografias e objetos coletados durante a procura, além de trazer representações visuais da lista de animais descrita por Borges. Ao reunir esses elementos, a instalação transforma-se, enfim, na própria enciclopédia, arquivando a experiência do estrangeiro que tenta decifrar os códigos de uma cultura através da ficção.

Dicionário Feminino, 2015-2017
Foto-Instalação (dimensões variadas)

A série origina-se do contato inicial do artista com o idioma mandarim. Ao aprender a saudação básica Ni Hao (Olá), ele descobriu que o ideograma é formado pela junção dos caracteres "mulher" (Nǚ) e "filho" (Zǐ), sugerindo que a ideia de "bom" (Hǎo) está intrinsecamente ligada à imagem de uma mulher com sua prole. Instigado por essa construção semântica e com a colaboração de mulheres chinesas, o artista investigou outras palavras que utilizam o radical feminino em sua estrutura. A obra expande essa pesquisa para a língua portuguesa, introduzindo termos zoomórficos historicamente usados para categorizar e depreciar mulheres (como "galinha", "vaca" e "cadela"). A instalação materializa essa pesquisa em um ambiente participativo, composto por carteiras escolares e cadernos de atividades onde o público é convidado a sentar e aprender a caligrafia das palavras expostas. O resultado é um dicionário visual que, através desse gesto de escrita e repetição, expõe como a linguagem atua como uma ferramenta transcultural de controle e estigmatização de gênero.

Fábrica de Pipas, 2015-2017
Instalação/Performance (dimensões variadas)

A China inventou a pipa milênios atrás, utilizando-a inicialmente para fins militares de sinalização e estratégia antes de consagrá-la como objeto lúdico. Partindo dessa origem histórica e do conto homônimo de Lu Xun, esta instalação recria o ambiente rigoroso de uma linha de produção fabril. O espaço é equipado com relógio de ponto, contratos de trabalho draconianos e estações de montagem, convocando o público a atuar como mão de obra em troca de recompensas controladas. A dinâmica impõe metas de produtividade severas: para levar uma pipa para casa, o participante deve produzir outras onze para o sistema (essa escolha é uma alusão direta ao dia 11/11, data que marcou o desmonte da legislação trabalhista no Brasil). No topo dessa pirâmide de exploração, paira uma promessa sedutora e quase inalcançável: aquele que primeiro atingir a marca de 1000 unidades produzidas receberá, como prêmio máximo, uma pipa folheada a ouro. A obra opera, assim, como um microcosmo do sistema econômico global, onde a ludicidade do brinquedo contrasta com a exploração do trabalho e a ilusão da meritocracia.

A Roupa Nova do Rei, 2015-2017
Foto e Papercut - 100x200 cm

Inspirada no conto homônimo de Hans Christian Andersen (1837) e desenvolvida durante a residência artística em Pequim, esta série nasce do estudo prático do artista sobre o Jianzhi (papel recortado). Esta técnica milenar de recorte de papel desempenha um papel central na cultura chinesa, sendo tradicionalmente utilizada em janelas e portais durante festividades e casamentos como amuleto de sorte e proteção espiritual. Apropriando-se dessa simbologia e de uma miscelânea de desenhos tradicionais usados nos Jianzhi, o artista criou suntuosos "mantos" vermelhos que são sobrepostos às fotografias de seu corpo nu. Essas tramas de papel são fixadas perfurando a imagem com um conjunto de alfinetes de ouro e outros dourados.

Muralha, 2015-2017
Foto-Instalação (dimensões variadas)

A Grande Muralha da China foi erguida originalmente como estrutura de defesa militar e controle de fronteiras. Nesta fotoinstalação, o artista atualiza o conceito de barreira para o contexto da globalização econômica. A obra é composta por uma série de autorretratos impressos sobre caixas de papelão — material símbolo do trânsito incessante de mercadorias. Nas imagens, realizadas durante a residência em Pequim, o artista calça uma bota vermelha que carrega uma ironia geográfica: o calçado foi comprado no Brasil, mas fabricado na China. Ao levar a bota "de volta para casa" em seus pés, o artista performa o fluxo inverso da mercadoria. A instalação evidencia o paradoxo contemporâneo onde objetos e commodities (representados pelas caixas) cruzam fronteiras livremente, enquanto corpos humanos enfrentam muralhas cada vez mais rígidas e vigilantes.

89 Passos, 89 Linhas, Desenho sobre a Paz, 2015
Foto-Instalação (dimensões variadas)

Esta fotoinstalação e GPS drawing nasce de uma ação performática "invisível" realizada na Praça da Paz Celestial (Tiananmen). Infiltrado na multidão, o artista executou uma marcha non-sense e imperceptível aos olhos da vigilância: caminhou exatos 89 passos em uma direção e retornou, repetindo o trajeto 89 vezes. A repetição numérica alude a 1989, ano do massacre estudantil ocorrido no local. A performance foi registrada em uma série de fotografias que formam uma composição na parede. Algumas dessas imagens são atravessadas fisicamente por tubos de metal, criando uma estrutura tridimensional que dialoga com a exibição do desenho gerado pelo GPS: um emaranhado denso de 89 linhas, cada uma construída pelo rastro digital dos passos do artista.

Coleção Vermelha, 2015-2017
Foto-Instalação (dimensões variadas)

Esta instalação organiza um inventário poético-documental guiado pela cor vermelha, elemento central tanto na cultura chinesa (símbolo de sorte e prosperidade) quanto na brasileira (o vermelho do Pau-Brasil, que dá origem ao nome da nação). A obra propõe uma arqueologia especulativa fundamentada na teoria do Estreito de Bering, retomando a tese científica de que os povos originários das Américas descendem de grupos asiáticos que, há milhares de anos, atravessaram uma ponte de terra e gelo que ligava a Sibéria ao Alasca. Explorando esse possível parentesco ancestral, o conjunto reúne desde xilogravuras do século XVI — que documentam a extração da madeira "cor de brasa" — e imagens de massacres indígenas, até justaposições entre a bandeira do Brasil desenhada por Tarsila do Amaral e iconografias imperiais chinesas, tecendo uma narrativa sobre exploração, revolução e identidade transcontinental.

Livro das Mutações, 2015-2017
Foto-Instalação (dimensões variadas)

Baseado na filosofia oracular do I Ching, o milenar Livro das Mutações chinês, este livro de artista homônimo apropria-se da estrutura dos 64 hexagramas que compõem o I Ching, figuras formadas por seis linhas horizontais organizadas em dois trigramas sobrepostos, sendo que cada trigrama de três linhas corresponde a um dos oito elementos fundamentais do mundo: Céu (Chien), Terra (Kun), Fogo (Li), Água (Kan), Trovão (Chen), Vento (Sun), Montanha (Ken) e Lago (Tui). Em derivas por cidades e vilarejos da China, o artista registrou cenas cotidianas, como superfícies urbanas, gestos ordinários, elementos da arquitetura, atmosferas e paisagens, entendidas como manifestações contemporâneas dos oito trigramas que compõem o I Ching. As páginas do livro, cortadas horizontalmente, apresentam duas fotografias por abertura, uma na parte superior e outra na inferior, em analogia à forma como são formados os hexagramas. Ao folhear ou abrir o livro aleatoriamente, as imagens se embaralham e a justaposição imprevista entre as partes produz uma cena inédita, um hexagrama visual gerado pelo acaso que convida o espectador a construir novos sentidos a partir do encontro entre fragmentos de realidades distintas.

Passeio Controlado, 2015-2017
Foto-Instalação (dimensões variadas)

Desenvolvido a partir de uma residência artística na Central Academy of Fine Arts (CAFA) em Pequim, em 2015, e realizado a convite do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), este projeto explora as interseções culturais, históricas e sociais entre o Brasil e a China. O título apropria-se do nome chinês dado ao artista durante sua estadia, Long Peisen (龍沛森), cujos ideogramas significam, respectivamente, Dragão, Abundante e Floresta. A imersão na China resultou em um conjunto de trabalhos de diversas linguagens (fotografia, vídeo, objetos, performances e instalações) que juntos compõem a exposição homônima. Nesse contexto, a pesquisa tece diálogos visuais sobre mitologias compartilhadas e tradições artesanais, como o recorte de papel e a fabricação de pipas, examinando conexões simbólicas entre as duas nações, como a centralidade da cor vermelha, que une a história do Pau-Brasil à simbologia auspiciosa e política chinesa.

+55 (61) 98109.1112

Avenida do Sol / Quintas de Interlagos L11, Jardim Botânico Brasília - DF, 71.680-375, Brasil

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A série Bibliomancia, iniciada em 2013, apropria-se da antiga prática oracular homônima que consiste em abrir livros aleatoriamente para buscar presságios em trechos sorteados. Guiado por esse acaso, o artista intervém em volumes garimpados imprimindo autorretratos diretamente sobre as páginas reveladas, estabelecendo um diálogo imprevisto e por vezes irônico entre a sua própria imagem e o conteúdo textual preexistente. Nessas obras, o livro atuar como um corpo escultórico e um relicário aberto, onde a fusão entre a mancha gráfica da palavra e a figura humana gera novas narrativas.

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