Bibliófilo
A série Bibliófilo reúne um conjunto de obras em que o livro é objeto central de pesquisa pela sua materialidade e corpo escultórico. Os volumes empregados nos projetos carregam suas próprias histórias de circulação: são frutos de heranças familiares, empréstimos (que nunca retornaram aos donos), pequenos furtos ou garimpos em sebos pelo mundo. Dessa coleta heterogênea nascem investigações que exploram a fisicalidade do impresso, desdobrando-se em subséries como Anexos (desde 2014), na qual os livros atuam como "túmulos" que acomodam delicadamente recortes fotográficos e fragmentos de papel. Já em Bibliomancias (desde 2013), o processo é guiado pelo acaso: apropriando-se da antiga prática oracular de abrir livros aleatoriamente, o artista imprime autorretratos sobre as páginas sorteadas, criando um diálogo imprevisto entre sua própria imagem e o conteúdo textual revelado. O mesmo suporte serve à série O Enforcado (2014), onde a imagem do corpo do artista é impressa invertida sobre o texto, evocando o arcano XII do Tarô para sugerir um estado de suspensão e sacrifício. Nessas obras, o volume opera como um relicário aberto que, ao ser manipulado, revela essas imagens enxertadas, afirmando-se como um organismo vivo, passível de cortes, inserções e ressignificações.
Bibliomancia, 2013
Foto-Objeto (1x1m)
A série Bibliomancia, iniciada em 2013, apropria-se da antiga prática oracular homônima que consiste em abrir livros aleatoriamente para buscar presságios em trechos sorteados. Guiado por esse acaso, o artista intervém em volumes garimpados imprimindo autorretratos diretamente sobre as páginas reveladas, estabelecendo um diálogo imprevisto e por vezes irônico entre a sua própria imagem e o conteúdo textual preexistente. Nessas obras, o livro atuar como um corpo escultórico e um relicário aberto, onde a fusão entre a mancha gráfica da palavra e a figura humana gera novas narrativas.
O Enforcado, 2014
Foto-Objeto (1x2m)

Na obra O Enforcado, uma interpretação do Arcano XII do Tarô, o artista transforma o livro aberto sobre o qual imprime as imagens de seus pés em uma espécie de patíbulo: é nas páginas que os pés da figura se fixam, enquanto o restante do corpo se projeta vertiginosamente para fora do livro. Essa operação visual inverte a hierarquia do conhecimento, pois não é o sujeito que domina o objeto de leitura, mas o livro que sustenta o corpo em um estado de sacrifício e vigília. A obra problematiza a erudição e a memória cultural como estruturas de tensão que mantêm o indivíduo em suspensão, exigindo dele uma inversão de olhar sobre o mundo para que, na imobilidade dessa penitência, novos significados possam ser construídos.
Apêndice, 2013
Foto-Objeto (dimensões variadas)
A série Apêndices nasce dos livros trazidos pelos próprios colecionadores que comissionam a obra. O processo inicia-se com uma conversa para compreender o contexto do volume na vida do proprietário, servindo de base para a seleção de outras fotografias e objetos de seu acervo pessoal que irão compor o trabalho. O artista então intervém no livro inserindo esses artefatos mesclando-os com outras imagens e documentos diversos e sem relação direta com o colecionador. Essa fusão ficcionaliza a biografia original, transformando o livro em um dispositivo que recusa a ideia de memória como sótão, um depósito estático de lembranças a serem apenas guardadas, para operar como fábrica: um espaço de invenção e produção criativa, onde o passado é reeditado e expandido para gerar novos sentidos no presente.











